História do Bolo de Rolo

Oi gente, que honra estar de volta. 👸 E que honra saber que o conteúdo dos textos é de interesse de muita gente! Eu não poderia ficar mais feliz. Espero estar conseguindo provocar curiosidade (e indignação, às vezes) em todo mundo, é meu objetivo aqui.

Estou de casa nova! Decidi me mudar, em resumo, porque aqui não dependo de propaganda do Medium e os leitores podem perambular pelos textos sem estar limitados a um número finito de leituras. Fiquem à vontade, escrevo isso para vocês. Me mudei também porque aqui... eu posso fazer o que quiser.

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Nesse texto, vou trazer a história de um doce muuuito popular nas nossas casas pernambucanas, conhecido por ser original dessa terra (ah, e por ser gostoso também). Não vou desapontar ninguém, o doce é pernambucano mesmo. E nesse embalo de nostalgia gostosa, desse carinho açucarado e enrolado, desse amor goiabento pelo Recife, pegajoso e muitas vezes polêmico ao ponto de defender absolutamente qualquer coisa que apareça na praça do Derby, do lanche no precinho à sala de exibição de filme iraniano, eu vos apresento a...

🦀 História do Bolo de Rolo

Como contamos nos textos anteriores, as terras caetés, tabajaras e potiguares passaram a ser atacadas por portugueses, ingleses, franceses e holandeses, que aos poucos adentraram os territórios, estabeleceram colônia, implementaram métodos de extração de madeira com escravizados nativos e, especificamente na história que contamos, decidiu que a aldeia de Marim dos Caetés, mais tarde Olinda, seria o centro da capitania independente pernambucana, cuja administração era de Portugal, o reino mais interessado no empreendimento invasivo dessa terra.

Em Olinda, os líderes nativos foram enganados e forçados a denunciar uns aos outros pelos ataques cotidianos às vilas portuguesas. Aqueles que se puseram ao lado de Portugal foram incorporados ao modelo europeu dessas vilas e aqueles que se opuseram ou foram assassinados ou fugiram para o interior, abrindo caminho para a dominação das várzeas do Capibaribe.

Povoações nas margens do Capibaribe em recorte de mapa do período holandês

Primeiro, os ingredientes

Que delícia que é tomar um suco de caju docinho e gelado, saborear um mousse de maracujá ou um chocolate do bom. As diversas formas que o açúcar hoje se materializa tem um fundo histórico milenar. Não é que todos os ingredientes precisem de ter suas histórias contadas, mas o açúcar em específico define o Recife enquanto cidade, define Pernambuco enquanto uma fábrica gigante e define a história do ocidente. Vamos voar rapidinho por todos os eventos históricos e encaixar Pernambuco dentro de um contexto muito maior do que apenas "capitania hereditária do Brasil", mas sim como um dos palcos da maior injustiça da história do mundo ocidental.

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A História do Açúcar: da Ásia até Pernambuco

Desenho à lápis de cana-de-açúcar, por Jan Brandes (entre 1779~1878)

  1. (8000 AC) Moradores da Papua Nova Guiné e região se chocam com uma grama fora do comum de tão grande cujos talos são uma delícia de mastigar e decidem cultivá-la e dar a seus porquinhos de estimação;
  2. Muambeiros levam mato doce gigante para a Índia, que se contenta (por enquanto) a mastigar bloquinhos de cana, igual nos acostamentos de rodovias do litoral do Nordeste do Brasil;
  3. (Século 4) Indianos descobrem como transformar o caldo da cana em areia, e inventam o maldito açúcar refinado;
  4. (Século 7) A Ásia continental se torna o Mundinho do Açúcar. Sobremesas e o incrível "chá com açúcar" é o item número 1 em presença nas refeições da nobreza chinesa;
  5. (Século 8) O expansivo mundo árabe chega no Mar Mediterrâneo com um capim gigante do oriente que dizem ser doce. Cidadãos experimentam e aclamam pó doce que é um sucesso entre as culturas europeias. A planta começa a ser cultivada na Europa e África árabe;
  6. (Século 10) Os árabes, que haviam conquistado a península Ibérica dos romanos, haviam implementado com sucesso o cultivo da cana por lá;
  7. Chineses em jogo de bebida de chá, pintura da dinastia Song (960-1279)

  8. (Século 11) Europeus reclamam:

    Eu PRECISO de mais açúcar, a vida é amarga DEMAIS.

  9. (Século 12) Homens vestidos de robocope com cruzes vermelhas nos seus escudos voltam do oriente com espadas sujas de sangue muçulmano. Eles voltam carregando açúcar e dizem que "a barra está limpa";
  10. Com a barra limpa, Veneza (que era um REINO) tomou para si regiões inteiras no oriente médio para o plantio de açúcar, pois a barra estava limpa;
  11. Ex-romanos na península Ibérica disseram: "Epa, saiam daqui" para árabes e eles saíram (depois de quase 1000 anos resistindo), nascendo o que seria Portugal e Espanha;
  12. (Século 14) Ex-romanos-árabes inventam uma nova prensa do caldo da cana, muito mais produtiva e bum do açúcar da Andaluzia e Algarves deixam população europeia rica ainda mais viciada;
  13. Rainha inglesa reclama do preço do pó branco:

    Tem que buscar MUITO longe porque nessa pocilga dessa terra não nasce NADA, que SACO

  14. Frame de "That Sugar Film" (2014) retratando a rainha inglesa com uma colher de açúcar em tela feita com grãos de açúcar

  15. Amizade entre Portugal e Espanha azeda por falta de açúcar. Portugal é obrigado a aprender a nadar e vira maior explorador marítimo daqueles tempos. Império português passa a ser o comerciante de produtos orientais na Europa, que tinha muito dinheiro, porque eram simplesmente descendentes dos romanos, que inventaram o dinheiro como a Europa conhecia;
  16. (Século 15) Portugal invade ilhas na costa africana, constroi o primeiro moinho de engenho de água e chicoteia pessoas para que eles produzissem mais rápido o pó branco pra vender na padaria de seu Manuel;
  17. Portugal invade o continente africano, recolhe pessoas, despeja-as nas ilhas, chicoteia elas só porquê as padarias de Manueis de toda a Europa PRECISAVAM do açúcar;
  18. Veneza, Bélgica e outras nações europeias gostam do modelo português nas ilhas africanas, "gostei", disseram, e passam a ajudar na produção, criando novos modelos de negócio da produção de açúcar sob chicote dessa empreitada que viria a ser a startup do horror;
  19. Engenho de açúcar na Europa (aprox. 1580~1605)

  20. "Rumores que se você navegar pro oeste, você chega mais rápido ainda nas Índias..." - era o bafafá na época. Brancos de toda a Europa fazem vaquinha pra pagar jovens que não tem nada a perder pra sair num barco de madeira por aí;
  21. Brancos chegam à América;
  22. (Século 16) Brancos não apenas chegam à Pernambuco, como percebem que a startup do horror seria simplesmente um sucesso aqui;
  23. O bastardo Duarte Coelho recebe Pernambuco de presente do rei de Portugal, depois de ter matado um monte de gente na Índia por causa de açúcar e pimenta e ser condecorado como homem de honra pela coroa portuguesa por isso.

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Pernambuco e a Startup do Horror

É discutível se Duarte Coelho (que era bastardo, por isso não herdou terras e consequentemente não tinha absolutamente nada para deixar de herança para seus filhos) veio à Pernambuco com a intenção de criar uma colônia de povoamento ou não. Mas fato é que ele e seus herdeiros transformaram a capitania em uma linha de produção de açúcar como não antes observada. Era uma quantidade colossal, não para a população pernambucana, mas para abastecer o mundo.

O primeiro donatário de Pernambuco havia aprendido na Tailândia, na China, na Índia e por todo o litoral africano como estabelecer essa linha de produção. Havia aprendido na Europa como ser um burocrata e esse primeiro impacto ditou como as coisas funcionariam nas primeiras décadas da nação pernambucana depois da invasão portuguesa. Ele e seus filhos invadiram e tomaram posse de Itamaracá até o Recife. Repartiram o terreno entre seus familiares e amigos, em espaços que conhecemos hoje por engenhos de açúcar, mas que na realidade eram fazendas inteiras. Elas eram chefiadas por famílias parte, ou muito próximas, da elite olindense (que era portuguesa). Muitas dessas famílias eram compostas por homens brancos casados com nativas, cujos filhos formariam uma elite miscigenada. Essas fazendas apropriaram as populações nativas locais e seus costumes para dentro de si iniciando o impacto português na vida popular do Recife.

Tudo isso funcionou apenas como um teatro de bondade cristã e europeia. Só servia como motor da grande fábrica de açúcar que Pernambuco se tornou. Conta o historiador Franz Obermeier que foi uma prática aplicada por toda a América:

Apenas São Vincente e Pernambuco obtiveram sucesso econômico com um novo foco no açúcar [no Brasil]. Sua produção era realizada nas costas dos escravizados. [Pela América,] postos comerciais deram certo onde as alianças entre os exploradores europeus e líderes nativos foram firmadas, baseadas em estratégias de casamento, onde esses líderes adotavam outros nativos como afilhados [parte dessa nova família].

A essa altura da história, o açúcar ainda é uma especiaria caríssima e não existe consumo popular da sua forma refinada, como consumimos hoje.

Leia mais sobre a chegada de Duarte Coelho em Pernambuco e a elite miscigenada em postagens passadas. Links disponíveis no fim desse texto.

Modo de Preparo do Açúcar

Agora, vamos discutir como nosso delicioso açúcar era produzido nos famosos engenhos.

A palavra "engenho" diz respeito a algo engenhoso, um invento, uma tecnologia. Nas fazendas de açúcar, o engenho dizia respeito à peça comum, o moinho, que toda a fazenda utilizava para moer a cana e dela extrair seus diferentes produtos. Comumente, quando descrevemos a fazenda, pensamos logo em casa grande e senzala, mas ela não funcionava assim. A casa grande era inacessível demais, um reduto isolado da vida comum da fazenda, bem diferente do que as novelas de época retratam. O dia a dia desse lugar era na senzala, no canavial, no engenho, nas vilas e no lugar comum a todos: a estrada.

Engenho de cana São Carlos, por Hercule Florence (1840)

A rotina era exaustiva. Todos os dias, os "trabalhadores" do senhor da fazenda conduziam os negros escravizados da senzala para os canaviais ou para os moinhos, onde cuidariam do plantio e cultivo ou cuidariam do processo de refinamento do açúcar. Esses "trabalhadores", brancos ou mestiços, fiscalizavam e direcionavam o trabalho escravizado, a fim de extrair desse suor os impostos suficientes para pagar o uso das ferramentas, o uso dos próprios negros escravizados (que na maioria das vezes não era 'posse' desse morador da vila, mas do senhor da casa grande) e instalações da fazenda como o moinho, as caldeiras e suas peças, as ferramentas de preparar a terra e o aluguel da vila, tudo era de propriedade do senhor. Como eles mesmos chamavam, era um "investimento" do senhor da casa grande. De segunda à sábado, essa era a rotina, com uma folga aos domingos que eram dedicados à cultura religiosa católica. Os negros também eram obrigados a ir à capela ou igreja da fazenda.

Engenho de açúcar em Pernambuco, ilustração de Nicolaes Visscher (1630)

Nas caldeiras de melaço, os homens trabalhavam mexendo aquele xarope sem cessar, à força, em temperaturas tão altas que os cozinhava vivos pouco a pouco. As caldeiras ainda soltavam faíscas e chamas que sempre acabavam por acertar algum dos negros, marcando suas peles de feridas. Peles já feridas pelas torturas à chicotadas e tratadas com sal e vinagre, sem direito a grito de dor. Os escravizados eram revezados, intermitentemente, de doze em doze horas, maximizando a produção. Constantemente lhes era negada a comida, precisando eles próprios cultivarem suas plantações de subsistência nos arredores da senzala. Dividiam entre si a garapa que lhes era permitida ter acesso, a água usada na lavagem do bagaço da cana. Era comum que os negros morressem durante o trabalho compulsório, seus corpos recolhidos por seus colegas de servidão e sepultados de forma simples ou atirados aos rios.

Da fazenda até o porto, local de onde seria transportado para a Europa, o açúcar viajava embalado em sacas nas costas de mulas, de bois ou de homens escravizados. As estradas recifenses eram vistas como um problema pelos senhores porque eram lamacentas e afundavam com o peso facilmente, Recife é um mangue, além de possuir um circuito de chuvas que inundam as várzeas, que duram meses, e o açúcar não pode ser molhado. As tropas de carregamento intercalavam o uso de carroças, barcaças e botes indígenas. É importante anotar que durante os primeiros anos de dominação branca no Recife, os nativos realizavam emboscadas nos caminhos das várzeas. Todos esses empecilhos encareciam a produção que foram sendo resolvidos ao longo dos séculos com a construção de estradas pavimentadas, estradas de ferro e a substituição dos engenhos por outros em locais estratégicos. Qualquer problema que envolvia o transporte do açúcar custava dinheiro ao senhor, custava dinheiro ao morador da vila e custava a vida do escravizado. O aumento do consumo do produto na Europa estimulava os senhores a garantir a "segurança" da produção em Pernambuco com mais violência contra os nativos e escravizados. Assim como hoje, a nossa "ordem" sob surra significava o "progresso" da produção brasileira, quanto mais se preocupava com o investimento externo, maior era a repressão contra nosso povo. Coincidência?

O francês Pierre Moreau em visita à Pernambuco no século 17 escreveu sobre os escravizados:

Era impossível que eles se libertassem de tão detestável que era a servidão, porque se pensassem em escapar e fossem reconhecidos pelas marcas de seus senhores, impressa em vários lugares de seu corpo com um ferro e brasa, em vez de encontrar refúgio, eram reconduzidos aos donos e torturados novamente.

Esse é o gosto do açúcar.

Enquanto isso, na Europa...

O açúcar que chegava das colônias americanas adoçava as bebidas e as receitas culinárias no velho mundo. Mas não se deixe enganar, a quantidade de açúcar disponível era pouca mesmo para aqueles que conseguiam pagar fortunas por sacas. O consumo estava restrito às elites europeias, figuras da nobreza, e foi a partir daí que a cozinha passou a incorporar o doce do açúcar refinado em seus pratos. Mesmo antes do açúcar chegar do oriente, os povos consumiam o pão, a massa de óleo e trigo, popular entre todas as classes já naquela época. Nesse tempo, o que se chamava de bolo era um tipo diferente de pão. Não havia fermento de cozinha para preparar a receita como nós conhecemos hoje, então o bolo tinha receita semelhante a do pão, decorado com fincos na massa e gema de ovo para dar efeito depois de assado.

Cena de cozinha popular europeia em 1550 aprox.

"Natureza morta com bolo", por Raphaelle Peale (1818)

É a partir do século 17 que a Europa começa a tornar popular a "sobremesa"(o que vem depois da "mesa", ou seja, da refeição) servindo pequenos doces, substituindo as frutas. Já a partir do século 18, o açúcar começa a aparecer de formas mais abundante na Europa (imaginem então como estava a situação nas colônias) e ele é incorporado à receita do pão.

Apenas um século mais tarde, aparece finalmente o pão-de-ló e sua variação francesa, o gâteau roulé (bolo enrolado), que se tornou famoso nas comemorações natalinas da França napoleônica, no início do século 19. Nessa época, a família real portuguesa se mudou para o Brasil, acentuando a popularização dos costumes nobres importados de Portugal e de Paris que se tornava uma cidade-modelo para o mundo. Recife seria uma de suas fiéis seguidoras.

Só em 1857, na França, que a obra literária de aventura Les Drames de Paris seria publicada. Por causa do livro, o personagem de nome Rocambole se tornou tão popular que virou adjetivo (rocambolesco), que significava ser aventureiro, ousado, e daria nome também ao bolo de preparação ousada mas apenas à sul do rio São Francisco. Isso porque a receita do bolo enrolado já estava presente nas ceias natalinas de Pernambuco.

E o bolo enrolado que chegou à Pernambuco antes do rocambole era uma variação do bolo colchão de noiva português, duas massa de pão-de-ló com recheio doce entre elas, enroladas.

"Cuidado com a luxúria", por Jan Steen (1663)

A linha de produção pernambucana

Para saciar os desejos europeus, Recife se estabeleceu como um grande porto e armazém de toda essa produção, ao longo dos anos. No séculos 16 e 17, nas várzeas do Recife (que compreendiam mais de um rio), os engenhos foram sendo dispostos aproveitando as águas como meio de transporte do açúcar produzido até o centro (os rios do Recife convergem para a atual área central) ou utilizando os existentes caminhos caetés que chegavam em Santo Antônio passando por São José.

A cana era plantada, colhida, moída e seu caldo refinado pelos escravizados. O pó era embalado, estocado e transportado até o porto pelos escravizados. No porto, era armazenado e transferido aos navios pelos escravizados. Tudo sob observação dos intermediadores dos senhores da casa grande e da burocracia olindense, que contavam e registravam cada um dos itens por onde eles passavam.

A produção de açúcar em Pernambuco atingiu uma escala tão absurda que os inúmeros armazéns no porto e nas fazendas guardavam quase absolutamente apenas açúcar, mesmo com a extração de pau-brasil e cultivo de algodão. Grandes galpões cheios de sacas que, durante os acidentais (ou incidentais) incêndios que aconteceram durante a história, exalavam fumaça de cheiro doce pela região. Todo esse exagero de produção permitiu que o consumo dentro das próprias casas grandes pernambucanas fosse possível em abundância também, mesmo antes de que a classe média europeia tivesse acesso ao açúcar comercialmente. Esse acesso cedo permitiu que Pernambuco fosse berço de várias iguarias com açúcar, como o próprio bolo de rolo, antes mesmo que Rocambole virasse doce.

Disposição dos engenhos em Recife e arredores no século 17

O Negro na Cozinha e o Araçá

Como comentado antes, toda a produção e logística eram desempenhadas pelos negros na rua. Dentro das residências e instituições, o negro, como já sabido, desempenhava (ou desempenha?) os serviços domésticos pesados: a limpeza, o leva-e-traz, o serviço de mordomia e a cozinha. Empregados de acordo com seu tipo físico e confiança dos senhores, seus trabalhos davam vida à casa grande, aos equipamentos públicos e às instituições religiosas. É importante anotar aqui que por negro compreende-se todas as formas de etnias racializadas presentes nesse momento histórico em Pernambuco. Inclusive, é o termo utilizado nos próprios diários europeus da época, diferenciando ainda no começo da invasão os nativos dos africanos por chamá-los de "negros da terra". A partir do estabelecimento com sucesso do empreendimento português, todos os que não faziam parte da elite, ou não tivessem alguma ascendência europeia, eram negros. Vale também anotar o termo "negro-forro" para designar figuras escravizadas que conseguiram livrar-se da condição de "ser posse", pelo menos documentalmente.

A cozinha operada pela pessoa negra na história pernambucana define nossa cozinha hoje. É importante lembrar que o branco sequer desempenhava atividades dentro dela se não fosse de fiscalização. As refeições eram até servidas em um espaço diferente, as salas-de-jantar, desse reduto que era de trabalho apenas, a cozinha. Também o negro é quem vai ter que utilizar de sua criatividade nas cozinhas das senzalas para poder sobreviver com o que lhe era disponível: as frutas, as raízes, os grãos locais e tudo o que era possível de cultivar, além do que restava do refinamento do caldo da cana-de-açúcar.

"Negras comerciantes de sonhos, manoé e aloá", por Jean-Baptiste Debret (1835)

A cozinha brasileira, que é negra, possui utensílios que não se encontrava em outras cozinhas do mundo. Exemplos deles são os diferentes tipos de pilão e os grandes potes de água, ainda presente nas cozinhas dos interiores do Brasil. O encontro dos costumes indígenas e africanos criou possibilidades revolucionárias, tanto dos traços herdados da nobreza mestiça de Pernambuco, quanto das vidas anteriores à escravização nas sociedades americanas e africanas pré-invasão europeia. E nas cozinhas dividiam-se mulheres negras, que também dedicavam-se à criação das crianças e outros afazeres domésticos, e homens negros cujos senhores os identificavam como ineptos ao trabalho fora da casa. Esses homens, muitas vezes identificados como afeminados ao longo da história, serão os grandes mestres da culinária brasileira, uma vez que a cozinha será a sua maior ou única atribuição servil na divisão das tarefas. Outras cidades do Brasil observam a mesma forma de evolução das suas cozinhas, como Salvador na Bahia, que se tornaria outro grande pólo gastronômico, com pratos únicos frutos de todo o sincretismo cultural de sua história.

Recorte de "Vasos feitos em terracota para guardar água", Jean-Baptiste Debret (1835)

No Recife, onde suas características econômicas de gigante fábrica e armazém de açúcar e também por ser uma apropriação do espaço de convivência do povo caeté, se observa o desenvolvimento e agregação de costumes exclusivos. A várzea do Capibaribe é, até hoje, solo para mamoeiros, cajueiros e araçazeiros. Esse último, a árvore do fruto araçá, que dá nome a uma lagoa urbana da cidade, é nada mais nada menos do que a goiabeira (Psidium guajava). Os registros históricos da fruta se dão por essa palavra, inclusive. O termo "goiaba", que tem origem caribenha, seria introduzido no português pernambucano mais tarde.

Acontece que a receita original de colchão de noiva exigia pasta de amêndoas como recheio. E onde que se conseguiria esse ingrediente em Pernambuco para agradar o gosto dos senhores locais? O intelecto culinário dos cozinheiros negros em Pernambuco sugeriria a pasta de goiaba recheio. O sucesso dessa criação entre a nobreza pernambucana forçaria a aparência grossa daqueles rolos franceses à sua apresentação mais fina e delicada possível, desenvolvida pela cozinha negra.

Recorte de "Bananas, goiaba e outras frutas", por Albert Eckhout (aprox. 1610~1666)

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Patrimônio Doce

O bolo de rolo seria em 2008 transformado em patrimônio cultural e imaterial de Pernambuco. Ele carrega consigo a história de todos esses corpos negros submetidos a dor e a morte desamparada, a fim de incorporar as tradições da metrópole apenas para agradar os senhores brancos, cuja mentalidade limitada, colonizada, apenas os permite observar o europeu, o branco, como de valor. Essa mentalidade se observa ainda hoje, como uma grande continuidade temporal. É importante anotar que esses pratos adaptados para satisfazer as mentes colonizadas, como o bolo de rolo e o bolo Souza Leão, não são os únicos quitutes de adaptação negra por aqui. A cartola, a tapioca molhada, o cuscuz branco, a cocada, a pamonha doce, a canjica, o pé de moleque, o pastel de festa, a rapadura, o bolo de macaxeira, o munguzá, entre outras delícias são até hoje atribuídas ao gosto popular, que não encontramos no que se considera "chique", globalizado, com exceção da mesa da mais antiga nobreza pernambucana. Essa nobreza que faz questão de expor seu apego à terra, mas continua a ignorar as problemáticas não-compensatórias a seus antigos empregados escravizados, como se o "fim" da escravidão tivesse eliminado qualquer dívida branca e bondosamente passasse a ser uma permissão, apenas, de um "novo início" para a população negra.

O início da cultura da cana-de-açúcar em Pernambuco alterou toda a configuração local e desdobra todos os eventos históricos desde então. Apenas nos últimos 50 anos do século 16, ou seja, em menos de 100 anos de ocupação portuguesa, o porto do Recife já estaria abarrotado de armazéns e sacas de açúcar. O negócio era extremamente lucrativo, visto que a Europa era um mercado sedento. O constante crescimento desse mercado justificava, para os europeus, trazer mais escravizados da África. Justificava também a construção de fortificações pela costa. Naquele tempo, se havia muito dinheiro acumulado (considerando açúcar como algo valioso), haveria interesse externo. Portugal e Espanha foram a vanguarda das grandes navegações, mas não demorou muito para que outras nações se lançassem ao mar também. Rondas constantes de franceses, holandeses e ingleses eram observadas. Na transição do século 16 para o 17, Recife sofreu um grande ataque sobre seu patrimônio doce. O porto foi invadido com sucesso por piratas.


Pra finalizar...

Confesso que fui surpreendido pela construção desse texto. Eu tinha em mente usar o bolo como alegoria pra conduzir a conversa a história do açúcar em Recife e, claro, eu já esperava tocar nas questões dos abusos humanitários cometidos nas Américas tão rotineiros que a partir de um momento apenas se aceita como normal, enquanto a Europa se encantava com a novidade e as possibilidades que o açúcar trouxe a suas vidas. O que eu não esperava era quão fundo dá pra entrar nisso. Me peguei vasculhando sites e livros que citassem bolos, pães, doces e descobri algumas obras fantásticas que relacionam a história das sociedades com a história da alimentação. Há, além do famoso livro de receitas "Açúcar", de Gilberto Freyre, outro dedicado à discutir a culinária e a história do açúcar que é "Doce Pernambuco" de Raul Lody.

Descobri também, em alguns relatos em Gilberto Freyre e Evaldo Cabral de Mello, que a história das outras colônias das Américas se confundem com as histórias de suas cozinhas também. Que as sobremesas em Nova Orleans, nos Estados Unidos, lembram as baianas e as pernambucanas.

Nordeste do Brasil? Não, sudeste dos Estados Unidos...

...enquanto a vida era doce na metrópole

No mais,

Você que chegou até aqui, não precisa sentir culpa da próxima vez que for comer bolo de rolo. Certo de que não é possível separar a história do açúcar da história de luta de libertação negra, nossas realidades precisam ser interpretadas como resultados das circunstâncias do passado e que elas são carentes de transformação. Somos agentes atuantes do presente. Conhecer a história das coisas ao nosso redor é um processo de libertação e descoberta de vidas que estiveram sempre ali, só esperando ser ouvidas.

Também gostaria de deixar como indicação um vídeo do Tempero Drag sobre "liberdade de escolha". Como vocês acreditam que nos encaixamos na construção histórica das atuais circunstâncias e, diante da nossa realidade, o que podemos fazer para construir novas circunstâncias de forma mais humana?

Mais em postagens passadas

"A aldeia de Igarassu", a chegada de Duarte Coelho à Pernambuco

"Oh! Linda situação para uma vila!", a fundação de Olinda

"Miscigenação" e o mecanismo de dominação portuguesa


Agradecimentos

Gostaria de agradecer a duas estudantes de gastronomia, @fernandaazoubel e minha amiga @falbeline por terem me atentado a explicitar a participação do bolo colchão de noiva na origem do bolo de rolo, mandando o texto pra professores da área revisarem (hahaha suei frio) e me indicando ótimas referências que foram adicionadas à lista desse texto. Muito obrigado!

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